sábado, 27 de outubro de 2012

Céu encoberto







Céu encoberto... alma aprisionada...
as estrelas, vazias, se recolhem.
As madrugadas tristes não são nada,
mais triste é o amanhecer que não se colhe.


Poema: Elaine Regina
Imagem: autor desconhecido


© Todos os direitos reservados - registrado no EDA/Fundação Biblioteca Nacional  

sábado, 20 de outubro de 2012

Foi assim a minha chegada ao teu recanto


"Deixa eu dizer que te amo
Deixa eu pensar em você
Isso me acalma, me acolhe a alma
Isso me ajuda a viver..."


Marisa Monte/Carlinhos Brown





Eu me esgueirei, sem nem saber que andava.
Caminhei, sem notar que me estendia.
O meu corpo converteu-se em finos ramos
e atravessou minúsculos espaços,
jamais abertos ao olhar desatento.


Virei brisa à garganta da janela,
mas não sei ao certo quando entrei...


Só percebi as emoções entreabertas
despontando em cores promissoras,
em cada canto de uma sala de braços quentes,
empenhados em receber qualquer lamento
que, porventura, caísse da minha alma.


Carícias exatas refizeram
lentamente a minha pele descoberta.
E a forma dos meus seios maduros
logo transpôs a superfície
fosca e simples que me guardava.


Foi assim a minha chegada ao teu recanto.
E hoje eu sei que habito em ti.
Mas a morada, meu amor, é refletida.
Também me entraste pelos poros,
assumiste os cantos do meu peito
e viraste um habitante em mim.



Poema: Elaine Regina
Imagem: autor desconhecido



© Todos os direitos reservados - registrado no EDA/Fundação Biblioteca Nacional

sábado, 13 de outubro de 2012

Todo mundo tem o seu pedaço de Inferno







Todo mundo tem o seu pedaço de Inferno.
Então pegue o seu e coma-o. Mastigue-o, engula-o e faça um sonoro “Hummm”.
Senão ele será a sua sobremesa permanente e nunca sairá da sua mesa.
Ao comê-lo,
pelo menos ele sairá de dentro de você
de algum jeito...



Poema: Elaine Regina
Imagem: autor desconhecido

© Todos os direitos reservados - registrado no EDA/Fundação Biblioteca Nacional 

sábado, 6 de outubro de 2012

És o sonho mais doce que eu já tive






És o sonho mais doce que eu já tive
e, entre todos, foste o único capaz
de atrair à própria pele imaginada
partículas suspensas de realidade
e dar forma,
através da pele refeita,
ao desejo esfumaçado no pensamento.

Só existiu tamanha força transcendente
porque as nossas mãos se entrelaçaram
e modelaram a escultura do amor vivo.

E, embora não possamos construir
um mundo a partir do sonho,
temos matéria-prima suficiente
para andarmos sempre de mãos dadas.



Poema: Elaine Regina
Pintura: Lawrence Alma Tadema



© Todos os direitos reservados - registrado no EDA/Fundação Biblioteca Nacional  
 

sábado, 29 de setembro de 2012

Teu amor aprofundou os meus olhos






Não te conheço através das vias do palpável,
mas conheço-te por vias ainda mais reais,
que menosprezam a certeza do concreto.

Tu fizeste da flor pequena que eu era
uma flor de hastes bem maiores
quando me confiaste a semente dos horizontes
e tiraste o véu das janelas ocultas,
para que eu percebesse o quanto as perspectivas mudam
a depender do olhar que despertamos.

Apontaste para os cantos do meu ser
e mostraste que as cordas tecidas
para assegurar a firmeza das mãos
podem estrangular a vivacidade dos dedos.


Conjuraste o encantamento dos amores,
e os teus lábios prontamente ignoraram
qualquer distância pretensamente verdadeira.
Teu amor aprofundou os meus olhos,
e hoje eu vivo a impulsionar
as margens do meu infinito.


Poema: Elaine Regina
Imagem: autor desconhecido


© Todos os direitos reservados - registrado no EDA/Fundação Biblioteca Nacional  

sábado, 22 de setembro de 2012

O teu toque




O teu toque, cavaleiro,
é um dedilhar de prata derramada, 
que preenche lentamente as reentrâncias
do véu hesitante dos meus sonhos.


É a marcha nupcial que as estrelas
colhem dos olhos da lua,
em meio a gestos camponeses que se levantam
e tecem guirlandas de flores esculpidas.


Nas tuas mãos de cálice romano,
bebo a ânsia de querer-te na garganta
a deslizar, com aderência extrema,
na solidez nua das paredes
que tenho erguidas em mim.



Poema: Elaine Regina
Imagem: autor desconhecido



© Todos os direitos reservados - registrado no EDA/Fundação Biblioteca Nacional    

sábado, 15 de setembro de 2012

Se o meu cansaço falasse








Se o meu cansaço falasse, os ouvidos da Terra (e os distantes da Terra) [morreriam. 
Tamanho seria o grito libertado.
Bom, talvez não houvesse, de fato, tantas mortes... e os ouvidos apenas
se deitassem resignados sobre a relva
(numa espécie de procissão estática)
para aguardar o final do monólogo monótono
(e interminável...)
do meu cansaço.
Bom, talvez isso também não acontecesse... e eu
tivesse que suportar sozinha
o meu cansaço a tagarelar exaustivamente e a retirar do anonimato
cada canto meu que permaneceu ajoelhado,
repleto de umidade e afastado da luz.


É...


Ainda bem que o meu cansaço não fala...






Poema: Elaine Regina

Imagem: autor desconhecido


© Todos os direitos reservados - registrado no EDA/Fundação Biblioteca Nacional