sábado, 16 de março de 2013

O inverso








O homem dos meus sonhos nasceu ao contrário:
primeiro veio a existir,
depois – somente depois – foi pensado.
Primeiro, vestiu-se com a armadura da carne
e mobilizou toda a sua estrutura óssea,
somente depois é que entrou, sutil e vaporoso,
na medida exata dos meus sonhos.

Eu não o sonhei. Foi ele que atravessou
as letras na tela de vidro
– a possibilidade armazenada –,
os círculos formados
pela sinuosidade das palavras.

Nos arredores do pensamento,
não havia nem sinal da sua matéria,
mas a matéria despiu-se da matéria
e subiu os degraus,
até o convés
do pensamento.
                          

Poema: Elaine Regina
Imagem: autor desconhecido


© Todos os direitos reservados - registrado no EDA/Fundação Biblioteca Nacional 




sábado, 9 de março de 2013

Às vezes, o frescor de um sentimento







Às vezes, o frescor de um sentimento

corre triste o contorno da alvorada,

espreitando em silêncio a madrugada,

da janela dos próprios pensamentos.




Desce a noite, decresce o firmamento,

num tapete de estrelas naufragadas

que flutuam pequenas, peneiradas, 

como areia infinita em movimento.




Num lençol cristalino de águas mansas, 

pés libertos escrevem linhas finas 

que brilham mais que a prata das lembranças.




É um andar de belezas pequeninas,

na direção de breves esperanças

que se escondem atrás de grandes sinas.



Poema: Elaine Regina
Imagem: autor desconhecido



© Todos os direitos reservados - registrado no EDA/Fundação Biblioteca Nacional  

sábado, 2 de março de 2013

Erros










Errei.
E os meus erros comeram,
à luz das janelas ausentes,
partes gigantescas do meu corpo.



Os erros — céleres cupins,
magos
tão velhos quanto o primeiro esboço da natureza humana —,
penduraram à parte,
na parede de menor notoriedade,
as leis da Física,
pois os trechos esburacados por eles
conseguem ser sensivelmente mais pesados
do que as partes cuja inteireza foi mantida.
E é por isso que eu peso mais a cada hoje...

 
Por vezes,
gasto parte do meu tempo a observar toda a renda complexa dos erros.
E o trabalho não ficou de todo ruim:
Ganhei milhares de janelas...


 

Poema: Elaine Regina
Imagem: autor desconhecido




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Atualizado em 22/12/2013
 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Lanço-me abruptamente aos teus braços








Lanço-me abruptamente aos teus braços.
E o teu colo de rocha inabalável
– visando a permanência do meu conforto –
se desfaz em areia tênue e atribui
a cada curva constante do meu corpo
outra curva de inconstância fina e leve.


Sabes que sou uma onda imprevisível
a acompanhar os limites redesenhados,
que se expandem e se contraem conforme ordena
o pulsar irregular das sensações.


Entre nós não há pontes factíveis.
Mas nos amamos tão verdadeiramente
que o oceano se compadece:
abre os braços e nos une,
feito um firme, um imenso continente.



Poema: Elaine Regina
Imagem: autor desconhecido


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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Conselho








Ora, meu amigo, se você quer ter apoio para as suas coisas,
 

compre uma mesa grande e robusta. É muito simples.
 

Ah, não foi isso que você quis dizer? Você deseja ter o apoio das pessoas?
 

Ah, bom...


...


Então, não compre a mesa,
 

compre uma poltrona bastante confortável,
 

daquelas que duram uma Eternidade.
 

Tenho certeza que vai precisar dela...





Poema: Elaine Regina

Imagem: autor desconhecido


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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Todos os dias morro à tua espera







Todos os dias morro à tua espera,
num revolver interno angustiante
que me adormece e acorda a cada instante
e me faz diferente do que eu era.


Desemperraste, príncipe-quimera,
a roda presa dos desejos que antes
ressonavam parados numa estante
e agora correm loucos na atmosfera.


Domaste os movimentos arredios.
Colheste a plena entrega – tão visada –
no meio das recusas, nesses fios


de fugas retorcidas sempre dadas.
Deixaste com torrentes, beijos-rios,
as cheias do meu corpo reviradas.

Poema: Elaine Regina

Imagem: autor desconhecido



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